O que é vibe coding e até onde ele leva o seu app

Dá pra tirar a ideia do papel numa manhã. Daí até ter gente usando ficou mais fácil, mas continua sendo trabalho.

Alexandre LeiteAlexandre LeiteFundador do ColaboratórioPublicado em 5 min de leitura
Escada rolante que para num patamar; dali pra cima, degraus de pedra com login, pagamento, dados e gente usando

Em 30 segundos

  1. 1Vibe coding é pedir pra IA escrever o app enquanto você só olha a tela e pede ajuste, sem ninguém ter escrito antes o que ele precisa fazer. Pra testar uma ideia numa tarde, é ótimo. O problema aparece quando entra login, pagamento e gente usando de verdade: aí cada prompt conserta uma coisa e quebra outra.

Domingo de manhã, com o café ainda quente, você abre o Lovable e descreve aquele sistema de pedidos que ninguém nunca fez direito pra sua empresa. Quarenta minutos depois tem tela de login, lista de clientes, botão de novo pedido. Funciona. Na segunda você mostra pro time, todo mundo se empolga.

Três semanas depois, ele continua "quase pronto". O login cai quando entram duas pessoas ao mesmo tempo. O pedido some se alguém fecha a aba no meio. E cada vez que você pede pra IA consertar uma coisa, outra para de funcionar.

Se isso soa familiar, você fez vibe coding. E fez do jeito que quase todo mundo faz.

O que é vibe coding (ou vibe code)

Em vez de escrever código, você conversa: descreve o que quer, a IA gera o app, você olha a tela e pede ajuste. Ninguém lê o código, e ninguém escreveu antes o que o app precisa fazer. Você julga pelo que aparece.

O nome veio de Andrej Karpathy, pesquisador de IA, num post de fevereiro de 2025. Ele descreveu o jeito de trabalhar como se entregar à vibe e "esquecer que o código existe". E fez uma ressalva que quase todo artigo sobre o tema deixa de fora: disse que aquilo não era ruim para projetos descartáveis de fim de semana.

Repara onde está o recorte. Ele fala do jeito de pedir, sem plano e sem olhar o código. A IA escrevendo o código fica fora da ressalva.

Projeto de fim de semana é aquele em que ninguém precisa saber, antes, o que o app tem que fazer. Quando o app precisa durar, a IA continua escrevendo o código, e escreve bem. O que muda é o que vem antes do primeiro prompt: o objetivo, quem vai usar, as regras do negócio, o que não pode quebrar. Escrito numa especificação, isso vira o contexto que a IA segue. É assim que a gente no Colaboratório coloca sistema no ar, com a IA escrevendo boa parte do código.

A IA leva qualquer pessoa do zero ao passo 10 em quase qualquer assunto, e isso é legítimo. Do 10 em diante ela continua junto, desde que alguém saiba aonde quer chegar. Eu detalhei essa ideia no guia do protocolo antivibe.

Para testar uma ideia, o vibe coding funciona muito bem

Antes de existir essas ferramentas, testar uma ideia de sistema custava semanas de alguém programando. Agora custa uma manhã. Isso muda o jogo pra quem tem a ideia e não tem time de tecnologia.

Onde ele brilha:

  • Mostrar a ideia pra alguém. Uma tela clicável convence mais que uma reunião com slide.
  • Descobrir o que você mesmo quer. Ver a primeira versão revela o que faltou pensar.
  • Ferramenta de uso único. Um painel pra uma análise, um formulário pra um evento, uma conta que você vai jogar fora depois.
  • Validar o fluxo com quem vai usar. Antes de investir, você vê se a pessoa entende a tela sem explicação.

Em todos esses casos, se quebrar, ninguém perde nada além do tempo do teste. É exatamente o projeto descartável de fim de semana.

O app trava quando entra gente de verdade usando

O protótipo e o sistema parecem iguais na tela. A diferença está no que ninguém vê: quem pode ver o quê, o que acontece quando duas pessoas mexem no mesmo pedido, onde o dado fica guardado, o que acontece quando o pagamento falha no meio.

A IA responde exatamente o que você pede. Se você não pediu pra pensar em permissão, ela não pensou. Aí cada prompt novo costura um pedaço no app e solta outro. Eu chamo esse resultado de Promptenstein: o app costurado prompt a prompt, que anda, mas ninguém sabe bem como.

Criatura costurada com telas de aplicativo, com um ponto de costura se soltando ao lado de um aviso de quase pronto

Quem programa por profissão faz essa separação na prática. Na pesquisa anual do Stack Overflow de 2025, 51% dos desenvolvedores profissionais disseram usar ferramentas de IA todo dia. Na mesma pesquisa, 72% disseram que vibe coding não faz parte do trabalho deles, e outros 5% disseram que enfaticamente não. Usar IA pra escrever código virou rotina. Aceitar código sem saber o que ele deveria fazer, não.

Nada disso é motivo pra jogar o seu protótipo fora. Seu Promptenstein foi quem tirou a ideia do papel. Só que ele precisa de alguém decidindo antes do próximo prompt.

Depois do passo 10, o que falta é decisão

Daqui pra frente, a IA continua ajudando muito, mas ela não escolhe por você. Algumas perguntas continuam sendo decisão humana, e nenhuma ferramenta responde sozinha:

  • Quem usa e pra fazer o quê. Um sistema pra três pessoas do financeiro é outro sistema se o cliente também vai entrar.
  • O que não pode dar errado. Pedido duplicado é chato. Pagamento cobrado duas vezes é problema.
  • Qual dado é sagrado. O que precisa estar guardado amanhã, com histórico de quem mexeu.
  • O que é "pronto" pra você. Sem essa linha, o app fica quase pronto pra sempre.

Esse é o limite honesto do vibe coding. Ficou mais fácil construir, mas continua sendo trabalho decidir o que construir. E essa parte não acelera com prompt melhor.

A IA continua útil depois do 10, só que em outro papel. Em vez de pedir a próxima tela, peça pra ela listar tudo que pode dar errado no fluxo de pedido. Peça pra escrever, em português, as regras que o app segue hoje, confira se são as regras que você quer, e guarde isso como a especificação do app. Peça os casos de teste antes da correção.

Você vai descobrir que metade dos bugs era decisão que ninguém tinha tomado. A ferramenta é a mesma daquele domingo. O que mudou foi quem está conduzindo a conversa.

Um app travado no Lovable mostra onde a conta não fecha

Trabalhei com uma indústria de estruturas metálicas cujo dono construiu o próprio sistema sozinho no Lovable. A ideia estava certa e as telas existiam. Mesmo assim, o app passou meses sem conseguir virar produto que a operação usasse de verdade.

Ninguém ali fez nada errado. O dono fez o que a ferramenta prometia: descreveu e recebeu. O que faltava era alguém mapeando o terreno antes de pedir a próxima tela. Quem usa, o que quebra, o que entra primeiro.

Antigamente esse papel era da agência do sobrinho, que fazia o site e quebrava na primeira esquina. Hoje pode ser o Lovable fazendo o mesmo papel, com uma diferença boa: o protótipo sai muito mais rápido e muito mais barato. Dá pra aproveitar isso. Só não dá pra pular a parte de decidir.

Se o seu app de domingo continua quase pronto e não sai do quase, tente mapear essas quatro decisões antes do próximo prompt. Se quiser ajuda pra destravar, entre em contato comigo e conte onde ele parou.

Perguntas frequentes

O vibe coding é ruim?
Para testar uma ideia, é ótimo: você vê a tela funcionando antes de gastar dinheiro com ela. O problema aparece quando o protótipo vira o sistema da empresa sem ninguém decidir o que ele precisa aguentar. Aí cada ajuste conserta uma coisa e quebra outra.
Qual é a tradução de "vibe coding"?
Algo como "programar na vibe": você descreve o que quer em português e aceita o que a IA gera, sem ler o código. O termo foi usado pela primeira vez por Andrej Karpathy, pesquisador de IA, num post de fevereiro de 2025.
Quais são as ferramentas de vibe coding?
As mais usadas por quem não programa são Lovable, Bolt e Replit, que montam o app inteiro a partir de uma conversa. Quem já programa costuma usar Cursor ou Claude Code, que trabalham dentro do código. A ferramenta muda pouco o resultado: o que pesa é saber o que pedir.
Como usar vibe coding?
Comece descrevendo o problema, não as telas: quem usa, o que essa pessoa precisa fazer e o que não pode dar errado. Peça uma versão pequena, teste com uma pessoa de verdade e só depois peça a próxima parte. Guarde as decisões num documento, porque a conversa com a IA não guarda por você.
Alexandre Leite
Quem escreveu
Alexandre Leite

Mais de 15 anos em produto digital. Primeiro PM da Nibo, depois PM e GPM no eBay, na Farfetch e na Kaizen Gaming (Betano). Fundou o Colaboratório, estúdio de produto que usa IA e métodos enxutos pra desafogar a operação de pequenas e médias empresas.

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